Exposição em SP mostra que a Jamaica vai além de Bob Marley

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Jamaica, Jamaica! pode ser visitada gratuitamente no Sesc 24 de Maio, no centro da capital paulistana, até 26 de agosto

Bob Marley, morto em 1981, continua sendo um ícone da música jamaicana

Bob Marley, morto em 1981, continua sendo um ícone da música jamaicana

Reprodução/CD

Uma megaexposição sobre cultura jamaicana estreia nesta quarta-feira (14), em São Paulo. Depois de passar por Paris (França), a mostra Jamaica, Jamaica! pode ser visitada gratuitamente no Sesc 24 de Maio, no centro da capital paulistana, até 26 de agosto.

Ocupando o quinto andar do espaço, equivalente a 1.300m², a exibição traz fotografias, capas de discos, instrumentos musicais, folhetos, documentos, áudios e imagens de coleções particulares e instituições.

Frente do Jammy Studio, em Kingston, na Jamaica, em 1985

Frente do Jammy Studio, em Kingston, na Jamaica, em 1985

Divulgação/Expo Jamaica! Jamaica! – Beth Lesser

O projeto original da Cité de la Musique, em Paris, traça um panorama cronológico e histórico da ilha, tendo a música como fio condutor. Dessa forma, o público brasileiro poderá aprender mais sobre a Jamaica através de oito núcleos, nos quais, em conjunto, traçam um olhar político, social e cultural.

A curadoria da mostra é do jornalista e diretor cinematográfico Sébastien Carayol. O francês quer mostrar que o paraíso caribenho vai além do reggae e de seu “Rei”, Bob Marley.

— Para mim, a música jamaicana sofre com a falta de conhecimento sobre a cultura local. O público em geral só sabe metade da sua história, então isso dificulta que ela possa chegar ao nível de respeito que outros estilos “black” conseguiram na Europa (jazz, soul, funk e rap). Por exemplo, na França, o público sabe que Bob Marley faz reggae, mas você vai ficar surpreso em notar que algumas pessoas nem sabem que ele era jamaicano!

Fã de reggae, Gil gravou um CD na Jamaica

Fã de reggae, Gil gravou um CD na Jamaica

Reprodução/CD

Além da história da própria ilha, a exibição do Sesc ganhou uma parte dedicada a conexão Brasil-Jamaica, comemora Sébastien Carayol.

— Eu adoro quando a música jamaicana chega a algum lugar e se mistura com as culturas locais. Ela se encontrou com o som eletrônico no Reino Unido e se tornou UK Dub, atingiu o Maranhão com seu próprio sound system e deu origem ao samba reggae da Bahia. Essa mistura e compartilhamento cultural faz parte do DNA do Brasil.

A exposição ainda tem uma vasta programação integrada, com cursos, palestras, encontros e oficinas.

 Sébastien Carayol — Escrevi sobre reggae em revistas especializadas por cerca de 20 anos. Depois de um tempo, percebi que era legal, mas, às vezes, você acabava caindo numa espécie de clichê, pois os especialistas já sabem tudo. Para mim, a música jamaicana sofre com a falta de conhecimento sobre a cultura local. O público em geral só sabe metade da sua história, então isso dificulta que ela possa chegar ao nível de respeito que outros estilos “black” conseguiram na Europa (jazz, soul, funk e rap). Por exemplo, na França, o público sabe que Bob Marley faz reggae, mas você vai ficar surpreso em notar que algumas pessoas nem sabem que ele era jamaicano! Isso sempre me entristeceu, pois existe muito mais na ilha do que isso. Entre tantos gêneros musicais e inovações deles, posso citar a cultura do sound system (sistema de som intinerante onde DJs promovem bailes pelas ruas da periferia), além de histórias envolvendo figuras políticas negras muito importantes, como o ativista jamaicano Marcus Garvey e o Imperador etíope Haile Selassie. Então, em 2013, decidi começar a escrever projetos de exposição sobre o assunto ou, como o cantor Dennis Brown costumava chamar, “a metade que nunca foi dita” sobre a história musical da Jamaica.
Exposição em SP mostra fotos da cultura jamaicana

Exposição em SP mostra fotos da cultura jamaicana

Divulgação/Expo Jamaica! Jamaica! – Beth Lesser

R7 — Quais são as raridades que podemos ver na exibição?
Sébastien Carayol —
Para mim, a raridade reside na filosofia em torno da exposição. Em outros espaços, era mostrado um ponto de vista de um estrangeiro sobre o que eles pensam da Jamaica. Por isso, eu quis que a Jamaica viesse até nós para contar a sua própria história. Aqui, você pode ver de perto as obras específicas de artistas como Leasho Johnson, que pintou uma peça original apenas para Sesc. Ou o lendário artista de rua, vindo da periferia, Danny Coxson, assim como uma vasta gama de arte jamaicana clássica. E, claro, temos alguns destaques como os itens pertencentes ao Studio One, como o órgão de Jackie Mitto, impressões de fotos raras, a mesa de mixagem mítica do King Tubby, bem como partes de seu sistema de som. Os fãs ainda vão vibrar com a guitarra M16 de Peter Tosh (em formato de metralhadora), instrumentos dos Wailers e as roupas de palco de Lee Perry.

R7 — A exposição em São Paulo apresenta desdobramentos e impactos da cultura da Jamaica no território brasileiro. O que você acha dessa integração cultural?
Sébastien Carayol — 
Primeiro, penso que é fascinante, especialmente, sobre o que aconteceu no Maranhão, Bahia e São Paulo. Eu adoro quando a música jamaicana chega a algum lugar e se mistura com as culturas locais. Ela se encontrou com o som eletrônico no Reino Unido e se tornou UK Dub, atingiu o Maranhão com seu próprio sound system onde casais dançam (ao contrário da Jamaica) e deu origem ao samba reggae da Bahia. Essa mistura e compartilhamento cultural faz parte do DNA do Brasil.

R7 — A Jamaica é conhecida mundialmente por Bob Marley, mas a juventude local ainda faz reggae?
Sébastien Carayol — 
O reggae nunca estará fora de moda na Jamaica. É parte da vida cotidiana de lá. No entanto, funciona em ondas: agora existe o sucesso e ascensão do cantor Chronixx, então a ilha está ouvindo novamente mais reggae do que consumia há cinco anos nas rádios. Mas você pode ficar desapontado se você for para a Jamaica e esperando ouvir o “puro reggae” em todos os lugares. Agora, estilos como a Soca (gênero descendente do Calipso) são grandes por lá. E as festas de sound system conseguem fazer um mix de vários gêneros.

Acervo da exposição é rico em detalhes

Acervo da exposição é rico em detalhes

Divulgação/Expo Jamaica! Jamaica! – Beth Lesser

R7 — Assim como o Brasil, a Jamaica ainda sofre com a pobreza e violência nas ruas. A exposição também reflete sobre isso?
Sébastien Carayol — 
Sim, porque isso é indispensável para saber mais sobre a música. A violência na Jamaica é completamente manipulada e originada pelos políticos desde a década de 50, que armaram suas próprias milícias e gangues de rua para ganhar eleições. Por exemplo, a seção sobre Bob Marley é introduzida por um espaço sobre Trenchtown, o gueto em que ele cresceu. Isso já explica um pouco das raízes da violência na ilha. O que é interessante, para mim, na personalidade de Bob é que, uma vez que ele se tornou o primeiro astro a vir do terceiro mundo, muitas pessoas de fora não conheciam sua história inicial. Ainda estou convencido até hoje de que, quando Bob estava pedindo paz e amor, ele estava basicamente falando sobre seu antigo bairro.

EXPOSIÇÃO JAMAICA, JAMAICA!
Quando: 
Abertura especial no dia 14 de março (quarta), às 20h. Depois, a mostra segue de 15 de março a 26 de agosto de 2018. Terça a sábado, das 9h às 21h
Domingos e Feriados, das 9h às 18h
Onde: Sesc 24 de Maio (Espaço Expositivo, 5º andar) – Rua 24 de Maio, 109 – República, São Paulo

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